quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A(s) Crise(s) do Cristianismo(s).....

Será que existe uma crise no cristianismo na atualidade? 

Penso que sim. 

Mas especificamente qual seria? Bem possivelmente não há apenas uma causa, mas algumas, e poderíamos listar entre as principais, o modernismo e o relativismo, a falta de conhecimento bíblico entre os que professam a fé cristã, as várias igrejas neo-pentecostais com suas teologias da prosperidade e confissão positiva, a falta de disposição dos crentes em serem mais atuantes e deixarem de serem coniventes com denominações que professam um falso cristianismo, a baixa formação dos pastores ( estou falando daquela minoria que frequenta ou frequentou um seminário.) e a visão de um cristianismo atuante pelo exemplo de ação e fraqueza de discurso e não menos importante a falta de uma espiritualidade ortodoxa sadia e por fim a falta de investimento em pessoas por parte das igrejas evangélicas. 

Pretendo nos próximos posts atacar cada um destes itens no sentido de avaliar a profundidade destes problemas, suas consequências e as possíveis correções de rumo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A (im)possível aproximação entre Ciência e Religião.

A aproximação entre a ciência e a religião é problemática para todas as religiões ? Pessoalmente penso que não, mas para o cristianismo em específico sim. 

Esta semana assisti a conferência Ciência e Religião: Questões históricas e filosóficas, proferida pela Dr. Hilary Marlow, diretora de cursos do Instituto Faraday para Ciência e Religião (AQUI) e professora afiliada à Faculdade de Teologia da Universidade de Cambridge (AQUI), que explanou em torno de uma hora sobre a história do relacionamento entre religião e a ciência, e religião aqui, refere-se majoritariamente ao cristianismo, mostrando os principais pontos de conflitos e algumas questões relevantes do embate da fé com a ciência. De forma geral a conferência não trouxe grandes novidades e o tempo tanto para a conferência quanto para o debate foi muito pequeno para um tema tão complexo, sendo que as questões filosóficas do assunto pouco foram tocadas. 

O momento alto da conferência foi o debate que na verdade se resumiu a questões levantadas pelo público, nem todos conseguiram externar suas dúvidas uma vez que havia um tempo para encerrar o evento, eu por exemplo não consegui fazer a pergunta que gostaria, e que posteriormente meditando enquanto aguardava minha esposa vir buscar-me no campus, penso ter respondido. 

Bom, como qualquer debate que fale sobre ciência e religião, novamente insisto, principalmente se a religião em maior evidência for o cristianismo, vem a tona a pergunta sobre o evolucionismo, como conciliar a teoria evolucionista e o cristianismo? Aqui é que está o calcanhar de Aquiles. Em determinado momento ouvi dizerem que a maioria dos cristãos já são evolucionistas....bom tenho minhas dúvidas com relação a isto, porém o sentimento é de que o diálogo entre a ciência e o cristianismo teria que superar esta barreira, o evolucionismo, claro com a aceitação do evolucionismo pelos cristãos....

A pergunta que ficou martelando na minha cabeça foi : Se aceitarmos o evolucionismo teremos que reformular toda a teologia cristã e em outras bases! Nossa hermenêutica tem que ser refeita, aliás a hermenêutica e a exegese histórico-crítica tem que ser lançada fora e substituída por uma hermenêutica tipológica, lançando mão de analogias para justificar textos bíblicos.... se quisermos manter um resquício de religião, caso contrário, apenas estudar a bíblia como um livro da história de uma religião sem relevância na atualidade, a não ser por algumas questões éticas.

Explico, penso que ao assumirmos o evolucionismo fragilizamos toda a base do cristianismo, em primeiro lugar, é claro que teríamos que considerar o relato da criação como mito, perceba que não estou dizendo mito como sendo uma história inventada, mas como uma explicação simbólica de uma era em que não se tinha os "conhecimentos" atuais... bem desta forma a bíblia deixa de ser a revelação de Deus à humanidade mas a interpretação do ser humano da criação em determinado momento histórico.  OK, então não houve a criação como está relatado nas Escrituras... logo Adão e Eva também não, claro, logo esta história de pecado original... mito, nada disso, a ciência não dá a mínima abertura para isso... bom então sem criação, sem queda, sem pecado original.... logo sem necessidade do sacrifício vicário de Cristo! Toda a teologia terá que ser reinterpretada, ou melhor toda a teologia é anulada. A teologia liberal começa nas faculdades de filosofia e ciências... Bem minha conclusão, que pode estar errada é claro, é que, quem aceita o evolucionismo não crê no cristianismo histórico/ortodoxo. Não tem como. Se alguém conseguir me provar ao contrário, estou aberto à argumentações. 

Sempre quando se vai falar de aproximações entre ciência e religião normalmente isto implica em perdas para a religião, não digo na questão de um cientista aceitar que exista um Deus, isto ele até pode concordar e se intitular como espiritualista, mas aceitar o cristianismo com suas consequências, isto representa abrir mão de alguns dogmas da ciência e isto pouquíssimos fazem. 

Se realmente quisermos ser honestos penso que só há duas alternativas: ou mantemos o cristianismo histórico e aceitamos o criacionismo ou aceitamos o evolucionismo e declaramos que temos que  reformar toda a teologia cristã!. Não há meio termo.

Amo a ciência, foi uma das minhas primeiras paixões, comprava desde o lançamento a Ciência Hoje, a Superinteressante (quando era uma boa revista) e atualmente assino a Scientific American , a primeira universidade que ingressei com 17 anos foi de matemática (se bem que não concluí...) já li muito sobre física e astrofísica, e posso afirmar que tenho um conhecimento das ciências relativamente competente. Minha tese de dissertação de mestrado versa sobre biologia sintética e estou me enfronhando em leituras sobre DNA, RNA, DNA Recombinante, etc..., mas não posso abrir mão da minha fé, foi a experiência mistica do encontro com Cristo que me transformou, e é ela que me mantém em pé ainda hoje. 

Se a aproximação entre a ciência e a religião significar abrir mão dos fundamentos da fé, eu abro mão dos dogmas da ciência e mantenho a minha fé. Amém.

Soli Deo Glória.







domingo, 12 de outubro de 2014

Alienação e o homem moderno....

Fazendo a leitura da Teologia Sistemática de Paul Tillich, deparei-me com a questão da alienação como hybris, conceito esse muito profundo e bem explorado pelo autor.
 Mas o que me leva a escrever é um texto que encontrei no livro de C. G. Jung, “Psicologia e Religião Oriental”, onde Jung faz sua análise comparando os conceitos entre o pensamento religioso Ocidental e Oriental, e citando Kierkegaard, afirma (1):

“(...) “o homem está sempre em falta diante de Deus”. O homem procura conciliar os favores da grande potência mediante o temos, a penitência, as promessas, a submissão, a auto-humilhação, as boas obras e os louvores. A grande potência não é o homem, mas um totaliter aliter, o totalmente outro, absolutamente perfeito e exterior, a única realidade existente. Se modificarmos um pouco a fórmula e em lugar de Deus colocarmos outra grandeza, como por exemplo, o mundo, o dinheiro, teremos um quadro completo do homem ocidental zeloso, temente a Deus, piedoso, humilde, empreendedor, cobiçoso, ávido de acumular apaixonada e rapidamente toda a espécie de bens deste mundo tais como riqueza, saúde, conhecimento, domínio técnico, prosperidade pública, bem-estar, poder político, conquistas etc. Quais são os grandes movimentos propulsores de nossa época? Justamente as tentativas de nos apoderarmos do dinheiro ou dos bens dos outros e de defendermos o que é nosso. A inteligência se ocupa principalmente em inventar “ismos” adequados para ocultar seus verdadeiros motivos para conquistar o maior número possível de presas.”

Jung faz uma descrição que não há como negar representa o homem moderno ocidental, e o que é pior ainda, muitas vezes parece com o típico evangélico que encontra na acumulação e demonstração destas conquistas como bênçãos de Deus. Mas Jung fala de uma substituição da “grande potencia” pelo mundo ou dinheiro. Apesar dos conceitos diretos ou indiretos não serem em tese os mesmos, não fica difícil de fazermos aqui uma ponte com relação ao conceito de alienação de Tillich, quando o ser humano afasta-se da centralidade de Deus, e assume a sua própria centralidade e tenta conquistar a sua onipotência. Os itens enumerados por Jung, nada mais são do que degraus para que o ser humano dentro da sua alienação tente alcançar a infinitude, ou seja tente alcançar a sua própria deificação. Tillich(2) afirma: 

“Todos os seres humanos alimentam o secreto desejo de serem como Deus e todos agem de acordo com isso em sua auto-avaliação e auto-afirmação”.

É quando o ser humano tenta se auto afirmar através das suas conquistas para suprir a sua necessidade de infinitude que ocorre a sua alienação.

Esta necessidade de infinitude aponta para Deus, que é eterno, e do qual devemos participar. Não é possível preenchermos esta angustia de outra forma, alias todas as outras formas são destrutivas e alienantes ao ser e por isso “demoníacas”.



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1-Jung, C. G. Psicologia e Religião Oriental, Ed.Circulo do Livro, pg 15

2 -Tillich, Paul Teologia Sistemática, Ed. Sinodal/ EST, 5ª Edição Revisada, pg 345

A Igreja e o Corpo de Cristo...


Hoje muitas pessoas perguntam quem precisa da igreja, para que ela serve? Não posso ser um bom cristão sem participar de uma igreja?

Será que sabemos qual a função da Igreja? Qual o seu papel no mundo contemporâneo?

Se nos olharmos para os evangelhos e depois para o livro de atos, nos podemos ver a formação de um grupo de pessoas que inicialmente tinham ouvido a palavra de Jesus, que se reunião a volta dele onde ele estava, e ali ouviam suas mensagens e ensinamentos.
Jesus mesmo enviou seus discípulos para levarem a palavra de Deus, e isso dificilmente era feito individualmente, mas sim através de grupos reunidos.

A palavra Igreja no original grego é ekklesia que por sua vez tem origem no termo ek-kaleo, que se empregava para a convocação do exército para reunir-se, mas ekklesia passou a ter o significado de reunião de assembléia do povo de uma polis, cidade.
Os escritores sagrados empregam esta palavra para designar uma comunidade que reconhece o Senhor Jesus Cristo como supremo legislador, e que congregam para adoração religiosa, Mt 16: 18; 18: 17; At 2: 47; 5: 11; Ef 5: 23, 25.

Está comunidade então que se reúne para professar sua fé, e vive-la de forma completa, podemos chamar então de corpo de Cristo.

Hoje podemos falar de igreja praticamente de 4 formas:

1 - Todo o povo de Deus pelos séculos
2 – Comunidade local do santos (A igreja Primitiva)
3 – Todo o povo de Deus de Determinada época ( em um determinado momento histórico), a igreja chamada Universal.
4 – A Igreja dentro da Igreja

Pudemos perceber um pouco do desenvolvimento natural que a igreja sofreu, claro que não se pretende aprofundar este desenvolvimento em um espaço tão curto, mas deixar claro que na verdade a igreja nunca deixou de ser um ajuntamento, uma reunião de pessoas, mas não uma simples reunião há um objetivo e um sentido nesta reunião, este ajuntamento é de pessoas que professam a mesma fé, que compartilham, congregam, e louvam a Deus.
E dentro desta ekklesia, desenvolve-se a vida cristã, e um dos aspectos da vida cristã é o serviço cristão, a Igreja desde o seu principio foi paulatinamente se estruturando até chegarmos ao que temos hoje, uma igreja com departamentos, estruturas e funções...
De forma alguma isto é errado, a sua estrutura e divisão visa a sua maior eficiência, temos exemplos disso no livro de atos e nos evangelhos, isto deixa-nos claro John Stott, quando afirma[1] : “A comunidade cristã é o cuidado cristão, e o cuidado cristão é o compartilhamento cristão”.

A igreja tem em seu cerne propagar a palavra de Deus, o Evangelho e de ser Sal e Luz em uma sociedade envolta em trevas.

Também há outro fator de extrema importância quando falamos em Igreja, é ela responsável por guardar os princípios da fé. Está é uma responsabilidade de extrema importância, que a igreja protestante tem deixado passar sem muita reflexão. 

Então podemos dizer que a finalidade da Igreja pode ser dividida em Adoração, Edificação do corpo e Misericórdia, entendendo que o conceito usado aqui de misericórdia vai além do simples assistencialismo, mas o que envolve todo o conceito de missão integral.

Em uma época em que o conceito de Igreja tem sido tão deturpado, sendo utilizada como meio de alcançar poder e riqueza, temos a responsabilidade de vivermos igreja, a igreja naquele sentido mais puro, ouvir, viver e transmitir o Evangelho.


[1] Stott, John R. - A mensagem de Atos. Pg 89 – Ed. ABU