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sábado, 19 de maio de 2007

Do arquivo - As crises e os profetas.

Quando olhamos a história de Israel vemos que este povo passou crises tão grandes ou maiores que as vivemos hoje. Em vários momentos da narrativa bíblica podemos constatar toda a sociedade israelita corrompida, desde os altos escalões da administração publica, a começar com o rei, até ao mais simples representante do povo, que ao ver os exemplos da classe dominante assimilava rapidamente os seus conceitos como forma de adaptação e sobrevivência. Mas sempre havia setores da sociedade que não aceitavam tão passivamente esta acomodação a valores antibíblicas que corrompiam a sociedade e afastavam cada vez mais dos planos de Divinos. E quando todos achavam que estavam protegidos pela muralha da indiferença, Deus levantava um profeta para confrontar a sociedade. Muito das exortações destes homens estão gravadas até hoje na Palavra como alerta para o povo. Estes homens imbuídos de uma visão clara e da mensagem de Deus não tinham receio de se levantar e colocar em risco a sua própria vida, sua mensagem era dura e direta.

Hoje vivemos tais crises, o afastamento gradativo e constante dos valores da sociedade dos valores éticos constantes na Palavra de Deus, e parece que todos estão caminhando sem que ninguém os alerte para a proximidade do precipício. Diferente dos tempos bíblicos hoje já não se levantam mais profetas, pelo menos não como os que vemos na Bíblia, grande parte da igreja hoje se acomodou dentro das suas estruturas e estabeleceu seus limites, os profetas do AT não tinham essa limitação alertavam a sociedade sobre todos os seus erros, sejam espirituais ou materiais, falavam da idolatria, falavam da exploração do pobre, falavam da falta de caráter dos seus lideres. Hoje nossas igrejas querem prosperar, querem ser medidas por padrões que imperam na sociedade, já não queremos confrontar os valores do “mundo”, queremos competir com o mundo, queremos nos comparar com o mundo, queremos ser medidos por seus valores, não importa se estão corretos ou não.

Esta igreja é uma igreja morta, vazia, não impera o “não se conformeis”, não é uma igreja profética, até o termo profético ficou desgastado e vazio, apenas palavras de ordem, determinando e exigindo de Deus, o que supostamente seria o direito de seus filhos, a fé foi reduzida à moeda de troca no grande mercado de bênçãos.

Necessitamos urgentemente de líderes com coragem suficiente para apontar os erros da sociedade e, principalmente entre o próprio povo de Deus. Lideres que não tenham receio de por sua cabeça a prêmio, sabendo que “se Deus é por nós, quem será contra nós?”, lideres que tenham a coragem de serem verdadeiros profetas da Palavra de Deus. Já é tempo de se levantar os verdadeiros profetas.

A nossa sociedade clama por mudanças e alternativas ao que se apresenta : violência e indiferença; a igreja foi, é e sempre será agente de mudanças, mas para isso necessitamos de líderes fiéis e comprometidos com o Reinado de Deus.

Evangelho e Aspectos Culturais - Antropologia Missionária.

O evangelho é a revelação de Deus para o homem, ele é a expressão da redenção do homem através da morte e ressurreição de Jesus. É a Palavra de Deus, escrita pelo homem dentro de um contexto temporal e cultural.

Como obra literária está condicionada aos aspectos culturais, literais e temporal, escrita dentro de uma cosmovisão condicionada a cultura Judaica.

Como Palavra de Deus, contém todos os princípios éticos e morais que transcendem a qualquer época e cultura, pois trata-se dos princípios do Reino

O evangelho nesta perspectiva,sempre vai se relacionar aos três dimensões da cultura, Cognitivo, Afetivo e Avaliadores, mas ao mesmo tempo não fica condicionado a estes aspectos, uma vez que o evangelho deve ser separado da cultura humana, ele é transcendente a estes aspectos sendo revelação divina e não expressão humana.

Os aspectos culturais com os quais o Evangelho se relaciona são, mais detalhadamente:

1-Aspectos Cognitivos – Conhecimento, lógica, sabedoria. Trata-se de conhecimentos adquiridos e compartilhados com o grupo ou sociedade. Pode trazer as experiências das pessoas e a compreensão sobre aspectos divididos por este grupo.

2-Aspectos Afetivo (sentimento e estética). Engloba o sentimento das pessoas, suas atitudes e compreensão sobre beleza, alimentos, vestuário, gostos pessoais, bem como a maneira de como se alegram ou sofrem.

3-Aspectos Avaliadores. (valores e fidelidade) – Trata-se de valores pelos quais as relações humanas são julgadas como morais ou imorais, e através das quais teremos comportamentos específicos e escolhas tidas como corretas ou incorretas. Está englobado pelos aspectos do código moral da cultura.

O evangelho deve passar por estes aspectos, uma vez que ele deve ser compreendido com minha razão (Aspecto Cognitivo), ele deve transformar meu interior, mudando meus sentimentos que exerciam influencia negativa (Aspecto Afetivo), deve mudar meus valores éticos (aspecto avaliador), fazendo que tenha um compromisso com os princípios éticos e morais da Palavra.

Muitas vezes a nossa visão da cultura e do evangelho é resultado das nossas percepções, isto é, quando tenho a percepção do evangelho dentro do contexto de uma outra cultura muitas vezes faço uma correlação entre o evangelho e a cultura alienígena, absorvendo traços culturais como sendo a revelação de Deus, desta forma minha percepção do mundo, ou seja, minha leitura daquilo que está sendo apresentado passa pela percepção de certo e errado dentro do contexto cultural em que estou inserido ou dentro da cosmovisão adquirida.

Nossas experiências de vida são como filtros através das quais passo a “ver” e a interpretar novos fatos que me são apresentados. Se dentro da minha experiência de vida, na cultura em que estou inserido o relacionamento entre pai e filho é extremamente autoritário, meu pensamento sobre o relacionamento pai x filho estará carregado de fatores negativos, logo também terei dificuldade de entender a Deus relacionado com a figura de um pai amoroso. Para que tenha um verdadeiro entendimento deste relacionamento tenho que reconstruir o meu pensamento com relação a filiação.

Quando meu estilo de vida está condicionado ao contexto cultural, posso entrar em choque com os princípios bíblicos, uma vez que minha cosmovisão está formada pelo que tenho absorvido como “norma” dentro do contexto cultural em que estou. Desta forma cabe entender que os princípios bíblicos são princípios éticos que são metaculturais e que desta forma propõe mudanças nesta cultura.

Morte do autor e hermenêutica de textos sensíveis

Entendo que a teoria da morte do autor, partindo da desconstrução do texto é a base para o pensamento pós-moderno relativista. Pessoalmente não participo desta convicção de que o sentido do texto seja transferido do autor para leitor/interprete. Claro que posso efeuar a "minha leitura" de um texto, baseado na minha contextualidade, porém desta forma, e ainda mais afirmando a morte do autor, nunca poderia apresentar a validade de um texto em relação ao seu significado original.

É claro que todo texto apresenta "barreiras" na sua interpretação, os textos antigos, estas são ainda maiores, mas estas barrreiras não são intransponíveis, uma vez que posso utilizar todo o ferramental que a exegese e hermeutica apresentam para que eu possa me aproximar do autor e do significado do texto. Não discordo que há textos em que sua interpretação original ficam bastante prejudicadas, em textos religiosos esta dificuldade torna-se ainda maior uma vez que posso ter relatos profecias e visões extremamente simbólicos, mas na maioria dos textos posso ter uma aproximação suficiente para captar, se não integralmente o sentido do texto, pelo menos com uma boa margem de intelegibilidade da intenção do autor.

Como já disse no inicio o perigo de afirma a morte do autor é perder o significado original do texto, relativando a mensagem, é claro que o texto é muitidimencional posso "senti-lo" de várias formas, posso interpretá-lo livremente, mas está interpretação livre não pode ser usada como fundamento para o real significado do texto.

A finitude do ser.

Fazendo a leitura da Teologia Sistemática de Paul Tillich, deparei-me com a questão da alienação como hybris, conceito esse muito profundo e bem explorado pelo autor. Mas o que me leva a escrever é um texto que encontrei no livro de C. G. Jung, “Psicologia e Religião Oriental”, onde Jung faz sua análise comparando os conceitos entre o pensamento religioso Ocidental e Oriental, e citando Kierkegaard, afirma[1]:

“(...) “o homem está sempre em falta diante de Deus”. O homem procura conciliar os favores da grande potência mediante o temos, a penitência, as promessas, a submissão, a auto-humilhação, as boas obras e os louvores. A grande potência não é o homem, mas um totaliter aliter, o totalmente outro, absolutamente perfeito e exterior, a única realidade existente. Se modificarmos um pouco a fórmula e em lugar de Deus colocarmos outra grandeza, como por exemplo, o mundo, o dinheiro, teremos um quadro completo do homem ocidental zeloso, temente a Deus, piedoso, humilde, empreendedor, cobiçoso, ávido de acumular apaixonada e rapidamente toda a espéciede bens deste mundo tais como riqueza, saúde, conhecimento, domínio técnico, prosperidade pública, bem-estar, poder político, conquistas etc. Quais são os grandes movimentos propulsores de nossa época? Justamente as tentativas de nos apoderarmos do dinheiro ou dos bens dos outros e de defendermos o que é nosso. A inteligência se ocupa principalmente em inventar “ismos” adequados para ocultar seus verdadeiros motivos para conquistar o maior número possível de presas.”

Jung faz uma descrição que não há como negar representa o homem moderno ocidental, e o que é pior ainda, muitas vezes parece com o típico evangélico que encontra na acumulação e demonstração destas conquistas como bênçãos de Deus. Mas Jung fala de uma substituição da “grande potencia” pelo mundo ou dinheiro. Apesar dos conceitos diretos ou indiretos não serem em tese os mesmos, não fica difícil de fazermos aqui uma ponte com relação ao conceito de alienação de Tillich, quando o ser humano afasta-se da centralidade de Deus, e assume a sua própria centralidade e tenta conquistar a sua onipotência. Os itens enumerados por Jung, nada mais são do que degraus para que o ser humano dentro da sua alienação tente alcançar a infinitude, ou seja tente alcançar a sua própria deificação. Tillich afirma[2] :

“Todos os seres humanos alimentam o secreto desejo de serem como Deus e todos agem de acordo com isso em sua auto-avaliação e auto-afirmação”.

É quando o ser humano tenta se auto afirmar através das suas conquistas para suprir a sua necessidade de infinitude que ocorre a sua alienação.

Esta necessidade de infinitude aponta para Deus, que é eterno, e do qual devemos participar. Não é possível preenchermos esta angustia de outra forma, alias todas as outras formas são destrutivas e alienantes ao ser e por isso “demoníacas”.



[1] Jung, C. G. Psicologia e Religião Oriental, Ed.Circulo do Livro, pg 15

[2] Tillich, Paul Teologia Sistemática, Ed. Sinodal/ EST, 5ª Edição Revisada, pg 345

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O Fim da Inocência.

Houve uma época em minha vida formada de certezas, minha busca intelectual era pautada por literaturas absolutistas, afirmações taxativas, o mundo era branco ou preto, 0 ou 1 não havia espaço para dúvidas, meio termos, incertezas, talvez como produto do modernismo, tinha paixão por ciências exatas e crenças nas afirmações de grandes pensadores

É um tempo que lembro com uma certa saudade, onde o lugar para o cinza, o meio termo, o talvez não existia. Isso representava uma segurança, confiança de que não necessitava me questionar, poderia defender um ponto de vista e pronto.... Poderia chamar de uma época de inocência, mas com o passar do tempo, percebemos que por incrível que pareça não sabemos de tudo, não estamos sempre com a razão, cometemos erros, não somos donos da verdade... e pior aqueles em que nos apoiavam também não deram a ultima palavra, foram questionados, cometeram erros.... Aquilo que muitas vezes chamamos de realidade, não corresponde ao que vemos e que a grande maioria das afirmações ficam agora naquela região cinza, nublada, as certezas já não são tão simples, a realidade ficou complexa.

Hoje quando recebemos uma informação, em qualquer mídia, faz-se necessário questiona-la e questionar-se: que informação é essa? Quem está transmitindo? Quem é a fonte? Qual a ideologia, interesses, conceitos da fonte? Porque está sendo transmitida neste momento? Qual é a minha reação com relação a informação? Qual o meus pré-conceitos com relação a informação? Esta informação pode estar sendo manipulada (de qualquer forma, ênfase em determinada frase que pode destoar do total, imagens manipuladas, interpretação errada?), existe uma contra argumentação? Como esta informação pode alterara minha cosmovisão?

Vivemos em uma época maravilhosa e terrível ao mesmo tempo, a quantidade de informação disponível ao ser humano é fantástico... Tenho acesso a centenas de revistas, jornais, blogs, sites, livros digitais, museus digitais posso expandir minha consciência e inteligência de forma fantástica, ao mesmo tempo posso ser vitima desta variedade de informações, muitas vezes quanto maior a quantidade menor a qualidade, apesar de ter uma gama muito grande de informações, hoje tenho que gastar muito mais tempo no sentido de confronta-las e confirma-las.

Urge conhecermos, mas conhecimento sem sabedoria e inútil, não quero ser manipulado, não quero ser serviçal de sistemas opressores divulgando suas ideologias retrógradas, preconceituosas e irrelevantes, que trabalham para manter o status quo.... É claro que não estou defendendo aqui o relativismo, muito pelo contrário, creio que há verdades, mas somos e vivemos em sociedades mais complexas, múltiplas, realidades em redes... é neste contexto que a verdade tende a ficar manipulável, menos clara....

Jesus ensinou-nos a buscar a verdade, “Conhecereis a verdade, e a verdade os libertará”, quero pedir uma licença exegética para aplicarmos esta frase em todos os aspectos da nossa vida, seja pessoal ou social.

É, o fim da inocência é difícil... Quantas vezes não desejei voltar ao meu mundo simples das certezas fundamentais.... Mas o caminho é sem volta, resta-nos lutarmos para que as realidades voltem a ser mais “reais”, um mundo mais justo, e talvez menos inocente...

O que estive lendo

- Teologia do Cotidiano - Rubem Alves
Muito bom, tem alguns excessos, mas de forma geral é um livro que incomoda, comove e nos faz pensar, principalmente como muitas vezes afastamos Deus do nosso dia a dia.

-- O Monge e o Executivo - James C. Hunter
Sem muitas novidades, mas bom para relembrar certos conceitos e alguns paradigmas.

-- Sementes de Esperança - Jong Mo Sung
Excelente, uma reflexão profunda e coerente sobre a ideologia neoliberal, espiritualidade e utopias.

-- The Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras) - Henrich Kramer e James Spreger
Compêndio de Instrumentos de Tortura e Execução na Idade Média Européia, para quem não acredita do que o ser humano (se podemos chamar essas pessoas de humanos) são capazes de fazer.

Teologia hoje

Como elaborar uma teologia relevante para hoje ? Essa não é uma pergunta facil de responder, mesmo pq necessitamos entender a cultura e seus processos de construção.

Creio inicialmente que a teologia tem que sair do século XV, e entrar no século XXI, penso que há u esforço por parte de alguns teólogos para que isso ocorra, mas a grande maioria prefere o conforto das frases feitas e dos pensamentos já pensados..., tornam-se doutores em repetir o que já foi dito, senhores da verdade, icones das suas denominações, preferindo o conforto da acomodação do que se indispor com as lideranças, ou com o "status quo".

Como teólogo, procuro reler o meu tempo, a minha sociedade pelo prisma das Escrituras, mas sei que para isso necessito despender tempo, esforços e até dinheiro, sim porque livros e revistas não saem de graça...

Para construir uma teologia coesa e relevante para o meu tempo tenho que estar atualizado, saber o que acontece no mundo, entender se o que o homem esta fazendo hoje está coerente com aquilo que Jesus pede de nós. Não somente tenho que entender o que acontece hoje, mas procurar entender onde esse caminho em que optamos hoje vai nos levar amanhã.

Filme - 21 Gramas

21 gramas, Dirigido por Alejandro González Iñárritu. Com: Sean Penn, Naomi Watts, Benicio Del Toro, Charlotte Gainsbourg, Melissa Leo, Clea DuVall, Danny Huston e Eddie Marsan.

Trata-se de um filme muito interessante, desde a forma como é apresentado, com cenas que se misturam, criando uma colcha de retalhos que aos poucos vão formando um todo, em que se acaba percebendo como muitas vezes o acaso cruza vidas díspares.

Mas um dos pontos que me chamou a atenção é o processo de culpa que os personagens principais acabam assumindo. A culpa por um acaso que não lhes cabia impedir, e como este processo lhes desestrutura, todos sem exceções sentem o peso do que aconteceu, desde quem se beneficiou pelo mesmo, é interessante como a culpa pode assumir muitas faces, talvez pelo personagem achar que não merecia outra chance? Ou porque ele merecia viver enquanto outro morria? Ou porque ele deveria compensar por ter essa nova chance?

Mas como teólogo não poderia deixar de ficar impressionado com processo que ocorreu com Jack Jordan, ex-presidiário convertido, que assume um postura cristã radical, antes do acidente que lhe confronta com os fundamentos da fé. Torna-se até perturbador, a pergunta que ele faz, porque Deus lhe deu aquela camionete? Deus não saberia o que iria acontecer? Jack se sente traído, não entende os “propósitos de Deus”, e a culpa o atormenta, a ponto de não conseguir mais se enquadrar na sua antiga vida....

Mas a uma ultima mensagem... o final Paul Rivers, através da sua morte, acaba trazendo vida para os demais personagens... será isso? Acho que a analise não acaba aqui....

terça-feira, 15 de maio de 2007

Estou re-editando o meu blog, em breve estará atualizado.
Agradeço a compreenção
Abraços.